sábado, 14 de fevereiro de 2009

O transbordamento da arte cheia de cor e imaginação de Eli Heil aconteceu quando ela enfrentava um problema de saúde

ARTES PLÁSTICAS
Na doença, o ato germinal
O transbordamento da arte cheia de cor e imaginação de Eli Heil aconteceu quando ela enfrentava um problema de saúde

Neste pequeno texto pretendo tecer alguns comentários sobre a descoberta da pintura durante o período em que Eli Heil esteve doente, e, desde já, adjetivá-lo como um momento extraordinário, isto é, fora do comum, singular. Uma obra cujo nascedouro se deu no momento em que sua vida estava ameaçada.Curiosamente, a doença (não como metáfora) teve papel significativo na formação de muitos artistas. Longos períodos de reclusão por motivo de saúde ajudaram ou foram determinantes para Eli Heil, mas também para Antoni Tàpies, Joan Miró e tantos outros artistas plásticos, para não mencionar a importância que os períodos de internação, geralmente por tuberculose, representaram para os poetas e escritores. Estranha força exerce o fazer artístico sobre o espírito humano, sobretudo num momento de exclusão do mundo provocado pela doença. Vale lembrar que Joan Miró e Antoni Tàpies enfrentaram longos períodos de enfermidade e passaram por experiências semelhantes às de Eli Heil, mas desenvolveram poéticas distintas daquela criada pela artista catarinense.O ato de pintar representou para Eli Heil, desde a sua origem, um ato pela vida. Um modo de gerar energia. Ela realizou suas primeiras obras em 1962, durante a longa enfermidade que a manteve acamada por mais de cinco anos. Essa experiência de produzir na doença, e de produzir compulsivamente, transformou-se numa atividade de intensa dramaticidade (“o processo criativo e a técnica despejam-se de dentro de mim”), de grande força expressiva (“vômitos de criação”), de obstinação (“não parava mais, a ponto de ter visões”).Para Tàpies, a doença levou-o a refletir sobre as origens. Foi um período de leituras intensas que serviram para moldar o “barro” formulador de sua linguagem pictórica, como matéria-prima de sua obra – simbolismo, mitologia, religião, história, ética, metafísica, ciência, sociologia. E outras formas de expressão artística, como a escrita, tão presente em toda a sua obra plástica. Em 2004, estive em Barcelona entrevistando Antoni Tàpies para uma exposição dedicada a sua obra recente e que se realizou, em 2005, nas sedes do Centro Cultural do Banco de Brasil, da qual eu era curador. Iniciei a entrevista com a seguinte pergunta: Mestre, o senhor acaba de completar 80 anos. Analisando retrospectivamente, quais os momentos mais significativos que o senhor recordaria de sua vida e de sua profissão? Tàpies respondeu: “Em minha vida houve momentos que muitas pessoas consideram tristes. Fiquei doente aos 18 anos devido à miséria da Guerra Civil. Tive uma lesão pulmonar. Naquela época, não havia antibióticos, era uma tragédia. Mas para mim não foi um momento terrível. Foi uma ocasião em que fiquei dois anos de cama, sem sair... mas pude me formar muito bem espiritualmente.”Diferente de Eli Heil, Tàpies foi mais reflexivo do que dramático, mas se interessou pelas questões de cosmogonia, pelos mitos, pelos povos ancestrais da sua terra natal, a Catalunha. Ou seja, a doença acentuou seu interesse pelos conceitos e pela força dos símbolos que representam a origem da vida e das suas relações com o universo. Também, pela noção de tempo mitológico, contínuo, em certas culturas representadas pela serpente que devora o próprio rabo (a serpente é uma imagem recorrente na obra de Eli Heil), em contraposição ao tempo escatológico.A doença também desempenhou um papel determinante na juventude de Joan Miró para a criação de sua poética visual. Aos 18 anos (1911), Joan Miró contraiu febre tifoide e passou um longo período na propriedade rural em Mont-Roig, na Catalunha, recém-adquirida por seus pais. Essa estada foi definitiva para a sua atividade artística. Foi ali que ele decidiu dedicar-se inteiramente à pintura. Miró não poderia permanecer alheio à natureza escancarada diante de si, transformando-se do amanhecer ao entardecer.Nas telas desse período, assim como na obra de Eli Heil, tudo na natureza vive e se expressa com força germinal. Também nas telas de Miró não há diferença entre o mundo animado e o mundo inanimado. Os elementos normalmente desprezados da realidade despertaram o imaginário de Joan Miró. Ele diz: “A imobilidade (na natureza) me faz pensar em grandes espaços onde acontecem movimentos sem fim (na pintura). É a irrupção imediata do infinito no finito. Uma rocha, que é um objeto finito e imóvel, sugere-me não somente movimentos, senão movimentos sem fim. Isso se traduz em minhas telas por formas sempre semelhantes a centelhas que saem de um marco como um vulcão (impulso energético).”Para Eli Heil, a doença não provocou contemplação e reflexão: ao contrário, exacerbou aspectos do mundo imaginário, do delírio e do maravilhoso. Criou um mundo que contraria nossos hábitos visuais, e nega o modo passivo de contemplá-lo. Reinventou narrativas e modo de contá-las no espaço da tela. Sua pintura parece conduzir-nos ao abismo, pela sequência vertiginosa de cores, que constroem uma outra natureza. Na doença, a artista percebeu que a pintura e o desenho eram a única possibilidade de abrir uma nova janela para o mundo (o mundo lá fora, com metáfora de vida). Essa “janela”, curiosamente, abria-se para dentro de sua alma, rompendo as noções de espaço e de tempo. O percurso para dentro de si mesma mostrou-se luminoso e inesgotável. Esse processo, de aparência caótica, irrigou todas as veias de seu imaginário, que atuou como um vulcão em erupção permanente para exteriorizá-lo.Durante a enfermidade, Eli Heil criou certos símbolos ainda pouco explicados e que estão presentes, também, na nossa imaginação. E nos inquietam porque sabemos muito pouco sobre eles. A animação de todas as coisas na sua pintura cria um verdadeiro teatro da existência e não apenas da vida humana, isto é, há uma preocupação explícita de excluir e de negar o conceito do inanimado, daquilo que não tem vida. E vida é movimento; por isso, suas telas ondulantes provocam rodopios, assombro. As coisas e todos os seres vivem interligados e não podem ser separados de um grande todo, como os mitos inaugurais, os grandes mitos formadores do universo.Eli Heil também gerou uma fabulação mágica e ela mesma estabeleceu significados aos símbolos que estão presentes nas suas telas (o pássaro, a serpente, o ovo). A fabulação, tratada como alucinação, é a essência do seu processo criativo. A matéria pictórica e a cor de tratamento expressionista constroem seu universo mágico. O simbolismo, o caráter misterioso, a desordem do mundo natural, a fusão existencial de coisas e de seres, são fonte de criação de uma nova representação do mundo, onde tudo palpita. Eli Heil afirma: “Eu sou uma artista cuja mente ficou grávida cinco anos (referência ao período em que esteve doente) para renascer em borbotões”.A enfermidade não pode servir de parâmetro para a criação, nem os longos períodos de leito hospitalar servem de fermento à criação; entretanto, é curioso mencionar três casos em que o tempo de reclusão provocado pela doença teve papel germinal no desenvolvimento de suas poéticas visuais.FABIO MAGALHÃES Museólogo e crítico de arte

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