sábado, 14 de fevereiro de 2009

Escritores pedem bolsa, não prêmio

LITERATURA
Escritores pedem bolsa, não prêmio
AUTORES QUESTIONAM POR QUE O CRUZ E SOUSA PREMIA ROMANCE PRONTO E NÃO INCENTIVA OBRA EM ANDAMENTO

Antes de embolsar os R$ 50 mil do Prêmio Cruz e Sousa para publicação de seu romance, um escritor precisa de tempo livre para se dedicar ao exaustivo trabalho de dar vida aos personagens. E aí está o verdadeiro desafio: sobreviver da escrita é privilégio para poucos. Até por isso, as próximas edições do incentivo da Fundação Catarinense de Cultura (FCC) podem ter o aditivo de uma bolsa, espécie de salário concedido ao autor enquanto ele está no processo de elaboração da obra.O formato seria parecido com o da Bolsa Vitae de Artes, iniciativa do governo federal. Durante um período que varia de seis meses a um ano, o contemplado recebe um pagamento mensal para se dedicar exclusivamente à criação do trabalho artístico. Desde o lançamento do edital para o Cruz e Sousa, em outubro, houve uma corrente entre os escritores catarinenses para reivindicar essa categoria dentro da premiação.O blumenauense Dennis Radünz, autor de “Exeus”, “Livros de Mercúrio” e “Extraviário”, é uns dos que defendem a mudança. “Sou absolutamente favorável às bolsas para criação literária, como tem sido feito na Europa. É um modo mais democrático porque estimula uma criação mais significativa”, explica. Segundo o escritor, os R$ 280 mil distribuídos pelo Cruz e Sousa em 2002 poderiam ter causado um “fenômeno literário, com a publicação de mais de 60 obras num único ano”, mas auxiliaram apenas três contemplados.Alcides Buss, autor de “O Homem e a Mulher”, faz coro. “É uma boa ideia. O concurso como está é melhor para resgatar projetos engavetados, negados pelas editoras, mas para quem ainda não começou, o trabalho fica muito difícil deixar pronto em tempo”, analisa.Para Rubens da Cunha, conciliar a vida cotidiana com o ato de escrever prejudica até a qualidade do romance. “São obras longas, exigem mais tempo, silêncio. Muitos autores tem ótimas ideias e não podem fazer, então planejam escrever depois da aposentadoria”, avalia.Os escritores também afirmam que o valor poderia ser distribuído para oficinas de incentivo à prática literária. “O fenômeno literário não se dá com a publicação de um livro, é preciso melhor divulgação em diferentes regiões, o que é oneroso para escritores e editoras. A intenção é louvável, mas parece meio defasado”, diz o escritor Dennis Radünz.

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