sábado, 20 de setembro de 2008

O belo e o sublime

Arte
O belo e o sublime

A nova gestão da UFSC, sob a direção do reitor Álvaro Prata, tomou posse no início deste ano com o propósito de construir uma universidade culta, ousada, internacionalizada e acadêmica. Assim foi criada a SeCArte, Secretaria de Cultura e Arte, para mostrar que a arte não deve valer menos do que a ciência. A Semana Ousada de Arte, que se realiza de 22 a 26 de setembro, é uma parceria desta nova Secretaria da UFSC com a Coordenadoria de Cultura da Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Comunidade da Udesc.A nova parceria artístico-cultural UFSC-Udesc segue a inspiração de muitos filósofos e poetas, entre os quais Schiller, que, nas Cartas sobre a Educação Estética do Homem, pensa a educação estética como a retomada de uma totalidade perdida, uma totalidade que os gregos possuíam:"Naqueles dias do belo despertar das forças espirituais, os sentidos e o espírito não tinham ainda domínios rigorosamente separados; a discórdia não havia incitado ainda a divisão belicosa e a demarcação de fronteiras (...) Por mais alto que a razão se elevasse, trazia sempre consigo, amorosa, a matéria, e por fina e rente que a cortasse, nunca a mutilava. Embora decompusesse a natureza humana e a projetasse, ampliada em suas partes, em seu magnífico círculo divino, não a dilacerava, mas a mesclava de várias maneiras, já que em Deus algum faltava a humanidade inteira".Seria possível ainda esse sonho schilleriano, de pensarmos a educação estética como algo que traga de volta o ser humano na sua plenitude e totalidade? Talvez o homem cindido em esferas próprias da ciência e da técnica seja uma realidade da modernidade. Contudo, o esforço da nossa parceria será formar pessoas que desejem não apenas a utilidade das coisas, mas também o belo e a liberdade.Kant, nas Observações sobre o Belo e o Sublime, admite que as sensações de contentamento e desgosto repousam menos sobre a qualidade das coisas externas que as suscitam do que sobre o sentimento próprio de cada ser humano. Certo de que o homem só se sente feliz na medida em que satisfaz uma inclinação, Kant admite que há um sentimento de prazer no "homem acomodado, que ama a leitura dos livros porque o induz ao sono; no negociante, a quem todas as satisfações parecem triviais, exceto aquela de que goza um homem astuto quando calcula seus ganhos". Contudo, há um outro sentimento mais refinado que pode ser desfrutado mais demoradamente sem saciedade e extenuação, porque se refere a uma sensibilidade da alma. Ele não se refere às inclinações ligadas a visões elevadas do entendimento, como o enlevo de que Kepler era capaz. Ele nos fala de dois tipos de sentimento, que mesmo as almas mais comuns são capazes de sentir: o belo e o sublime. O sublime produz uma comoção agradável, porém ligada ao assombro; o belo é ligado ao alegre e jovial. Sombras isoladas num bosque sagrado são sublimes, tapetes de flores são belos. A noite é sublime, o dia é belo. Olhos verdes são belos, olhos negros são sublimes. O assombro que experimentamos frente às grandes tempestades e à profundeza de alguns precipícios nos dá uma idéia do sublime kantiano. Um sentimento de prazer misturado a qualquer coisa de terrível.O sublime kantiano é o precursor da idéia de que a arte não é só o contemplar da harmonia, mas também o experimentar da sensação de assombro. "Et vos lueurs sont le reflet / de lenfer doù mon coeur se plaît" (E seus clarões são o reflexo do inferno que apraz ao meu coração).Será que as concepções sobre o sublime podem ser consideradas atuais? Então, saltando dois séculos, citamos Breton, um dos mestres do surrealismo, que diria: "A beleza será convulsiva ou não será". É essa beleza convulsiva que queremos mostrar, num caleidoscópio contemporâneo da arte catarinense, misturada aos convidados externos, que intensificam o que aqui se faz.Na próxima semana, o belo se misturará ao sublime. A reflexão sobre Hölderlin de Cláudia Drucker encontra o grotesco de Antônio Vargas. O assombroso teatro de Crimes Delicados junta-se à intensidade dos filmes de Sylvio Back. As cores da peça Vermelho, Vermelho refletem o Cinza e a Cor da exposição de José Maria. Será também uma semana de ousadias: uma banda só de mulheres, a Banda Vinegar, mostra que bandas de rock não são coisas só de meninos. As intervenções no espaço de Fernando Lindote, Flávia Fernandes e Isabela Sielski mostram que arte pode ser tocada e experimentada. O grupo de performances do curso de artes cênicas apresentará o P.H.D., letras que abreviam o sugestivo título de Performance no Hospício dos Doutores.A UFSC e a Udesc mostrarão que o popular e o erudito podem ser complementares. O Ligetti tocado por Diogo de Haro é um contraponto à popular birimbalada. O Erro Grupo e o Grupo de Performances da UFSC dividirão o campus com o popular boi-de-mamão. Mistura-se a esse quadro multifacetado o show de Arrigo Barnabé, o filme Jango em Três Atos, a reflexão de Márcia Tiburi e a Ecomoda.Mas o que será exatamente a Semana Ousada de Arte? Um novo movimento da arte catarinense? Uma mistura caótica das múltiplas expressões artísticas? Não sabemos ainda. Apenas queremos povoar os campi da UFSC e da Udesc, durante uma semana, com o que encontramos de belo e sublime. Convulsivamente.* Maria de Lourdes Borges é secretária de Cultura e Arte da UFSC e Cláudia Messores é coordenadora de Cultura da Pró-reitoria de Extensão, Cultura e Comunidade da UdescMARIA DE LOURDES BORGES E CLÁUDIA MESSORES *

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