sábado, 2 de agosto de 2008

Escritor catarinense faz um levantamento das publicações literárias, espalhadas por todo o país, responsáveis pela divulgação de novos autores

Cultura
A literatura em revista
Escritor catarinense faz um levantamento das publicações literárias, espalhadas por todo o país, responsáveis pela divulgação de novos autores ao longo de várias décadas do século 20

A literatura brasileira deve muito, desde seus primórdios, às mais diferentes publicações, tanto revistas quanto jornais, com suplemento ou página literária. Meu propósito não é os séculos 19 e 20. No entanto, não posso deixar de me referir ao romance Memórias de um Sargento de Mílicias, de Manuel Antonio de Almeida, publicado em jornal, e a Machado de Assis, que, com seu próprio nome ou com pseudônimos, publicou muitos de seus contos em revistas. Minha intenção não é uma pesquisa extensiva ou seletiva; vou me limitar a três ciclos do século 20 (anos 1920, anos 1940/50, anos 1970), tratando apenas das publicações de que tenho exemplares.Comecemos pelos anos 1920. Sei de mais de uma dezena de revistas, porém possuo apenas três: Revista de Antropofagia e Verde, graças às edições fac-similares do bibliófilo José Mindlin; a terceira é a Revista Nova, embora de 1931.A Revista de Antropofagia, mais conhecida como a revista do Oswald de Andrade, pois é dele o Manifesto Antropofágico, na verdade foi dirigida por Antonio de Alcântara Machado e Raul Bopp, tendo o que eles denominaram de "duas dentições": a primeira, com 10 números; e a segunda, uma página semanal no Diário de São Paulo, durou poucos meses. Pelos dois primeiros números se pode aquilatar o que ela representou, pois além dos paulistas, ali estão o pernambucano Ascenso Ferreira, o pernambucano acariocado Manuel Bandeira, o carioca Marques Rebelo, os gaúchos Augusto Meyer e Manoelito de Ornellas, o mineiro Carlos Drummond de Andrade, entre tantos outros; Marques Rebelo aparece com um poema, e Drummond publica ali seu famosíssimo Tem uma pedra no meio do caminho. Em uma nota de pé de página, fala-se na publicação, para breve, de Laranja da China, de Antonio de Alcântara Machado, e Macunaíma, de Mário de Andrade, e em outra pergunta-se se não existem prosadores neste país, pois a redação recebera mais de 70 poemas, e nenhum texto em prosa. Também no primeiro número, há uma referência à revista Verde, que, na mesma época, 1928, começara a circular em Cataguases, tornando a cidadezinha mineira uma referência obrigatória para os meios culturais brasileiros. A nota, assinada por Antonio de Alcantâra Machado, referia-se a Henrique de Resende, Ascânio Lopes e Rosario Fusco. A segunda dentição já não tinha diretores, porém eventuais açougueiros, já que era uma revisa de antropofagia. Antonio de Alcantâra Machado não aparece entre os colaboradores, mas temos Geraldo Ferraz, em um ou dois números, e Raul Bopp, no último.A revista Verde revelou alguns nomes que se tornariam importantes na nossa cultura. O editor Henrique de Resende, um pouco mais idoso do que os demais, era engenheiro e trabalhava na construção de estradas naquela região; contudo, os nomes mais em evidência foram Guilhermino César, que logo se transferiria para o Rio Grande do Sul, onde fez singular carreira como professor universitário, incentivador de jovens e o mais importante historiador da literatura gaúcha; Rosario Fusco, teatrólogo e romancista, hoje pouco lembrado, e também Francisco Inácio Peixoto, poeta, contista, empresário, a quem se deve o audacioso projeto do colégio de Cataguases, de Niemeyer, e o painel Tiradentes, de Portinari. Um poeta do grupo, Ascânio Lopes, que morreu muito jovem, deixou em seu único livro alguns poemas plenamente realizados. Fato curioso é que, na mesma época, Humberto Mauro estava envolvido no Ciclo de Cinema de Cataguases, e, no entanto, a julgar pelas informações que obtive pessoalmente de Guilhermino César e Francisco Inácio Peixoto, por um lado, e do próprio Humberto Mauro, eles jamais mantiveram contato. Verde também publicou Drummond, Mário de Andrade, Ascenso Ferreira, Manuel Bandeira, Augusto Meyer e, outra vez, um poema de Marques Rebelo, que se tornaria conhecido como contista e romancista. Verde teve apenas seis números, o suficiente para figurar entre as revistas mais representativas de nossa literatura, pela abrangência e pelo espírito de renovação.A Revista Nova começou em 1931, mas manteve o espírito dos anos 1920. Era dirigida por Paulo Prado, Mário de Andrade e Antonio de Alcântara Machado; preocupava-se com temas não apenas literários, era trimestral; dela possuo os quatro primeiros números. No quarto há uma nota avisando que, a partir do ano seguinte, passaria a ser bimestral, o que não sei se chegou a acontecer. No editorial de seu primeiro número, vem explicitada a proposta dos diretores: uma publicação que não se preocuparia apenas com a criação literária, pois "o romance, a poesia, e a crítica não ocuparão uma linha mais do que de direito lhes compete numa publicação cujo objectivo é ser uma espécie de repertório do Brasil", trazendo a contribuição "de ensaístas, historiadores, folcloristas, técnicos, críticos e (está visto) literatos". Nomes como Tristão de Athayde, Câmara Cascudo, Sérgio Buarque de Holanda, Astrojildo Pereira, entre outros, escreveram sobre temas tão variados quanto as teorias de Freud e a escravidão na evolução econômica do Rio Grande do Norte.Se ainda não disse, devo dizê-lo agora: não estou fazendo um ensaio, nem uma análise minuciosa de tudo o que se encontra em tais publicações, mas chamando a atenção para o que representaram, a exemplo do que ocorreria nos dois ciclos seguintes.Os anos 1970 foram ricos em publicações literárias e/ou culturais, muito embora sofressem com a censura e tivessem de enfrentar o desafio de criar num clima de opressão e desrespeito aos direitos humanos. Na verdade, as publicações constituíam uma resistência à ditadura. Começo pela revista Serial, editada por Antonio Brasileiro e Ruy Espinheira Filho. Até o número oito, era, como eles mesmos fizeram questão de acentuar, uma revista baiana. A partir do número nove, tornou-se, segundo o editorial da própria revista, a única do país dedicada exclusivamente à poesia; muitos nomes hoje representativos nela começaram, brasileiros e de outras terras. A revista Anima era dirigida por José Carlos Capinam e Abel Silva, e morreu do mal do segundo número, mas acolheu Waly Salomão, Florisvaldo Mattos, Francisco Alvim, Ferreira Gullar, Gramiro de Mattos, Aldir Blanc, e realizou uma substancial entrevista com Octavio Paz. Cuca, dirigida por Antonio Augusto Rossetti, era, conforme ela mesmo se anunciava, uma revista de cultura capixaba.As cinco publicações mais longevas foram Inéditos, de Belo Horizonte; Escrita, de São Paulo; O Saco, de Fortaleza; José e Ficção, do Rio de Janeiro.Escrita, editada por Wladyr Nader, foi, talvez, a que mais tempo persistiu, e cuja abordagem não era somente literária, dava atenção a todos os temas ligados à cultura, se assemelhando à Revista Nova.Inéditos era editada por Vladimir Luz, e o conselho editorial era constituído por Murilo Rubião, Wander Piroli, Roberto Drummond, Henry Côrrea de Araújo e Jaime Prado Gôuvea. Durou de 1976 a 1977.José, editada por Gastão de Holanda e Sebastião Uchôa Leite, durou exatos 10 números, e é a única que, no último (em 1978), traz uma página avulsa explicando as razões que a tornaram inviável. É de se assinalar duas importantíssimas entrevistas; uma, logo no primeiro número, com Otto Maria Carpeaux, e a outra com Antônio Houaiss. Graficamente muito bem editada, seu 10º número era dedicado a Carpeaux, que havia falecido naquele ano.O Saco, como o próprio nome já diz, vinha em cadernos soltos dentro de um saco, e, entre seus editores, os nomes que se tornaram mais conhecidos foram os de Carlos Emilio Correa Lima, contista, ensaísta e hoje professor universitário, e Nilto Maciel, romancista e contista, que continua editando revistas literárias, primeiro em Brasília, onde residiu durante alguns anos, e agora novamente em Fortaleza.A revista Ficção, com o slogan "histórias para o prazer da leitura", teve também duas dentições, a primeira (dois números) em 1965, editada por Antonio Olinto e Cícero Sandroni, e a segunda (de 1976 a 1979), teve como editores Cícero Sandroni, Eglê Malheiros, Fausto Cunha, Laura Sandroni e Salim Miguel, e publicou quase que exclusivamente contos, eventualmente novelas ou capítulos de romances, além de resenhas e cartuns, todos referentes ao tema livro. Com uma tiragem de 15 mil exemplares, buscou realizar o mapeamento do conto em todo o país e teve correspondentes em 17 estados. Além de confirmar nomes, incentivou outros a continuar e revelou novos; Ficção publicou autores do México, Argentina, Portugal, Angola, Alemanha, Itália, França, Espanha.O período mais rico foi o dos anos 1940/50, tema do artigo ao lado. Embora não tenha exemplares de todas as publicações, o que possuo entre revistas de novos e de não-novos chega a quase 60, o que impossibilita a referência a todos, mesmo a mais sucinta.* Escritor, autor de, entre outros livros, A Voz Submersa, O Sabor da Fome, Mare Nostrum, Nur na Escuridão, Primeiro de Abril: Narrativas da Cadeia e Vida Breve de Sezefredo das Neves, Poeta
SALIM MIGUEL *

Nenhum comentário: