sábado, 26 de julho de 2008

O espetáculo Jardim das Delícias, no Teatro da Armação, na Capital, revela os infernos de duas vítimas da própria pureza

Teatro
Palco e poesia
O espetáculo Jardim das Delícias, no Teatro da Armação, na Capital, revela os infernos de duas vítimas da própria pureza

Quinhetos e oito anos separam o Jardim das Delícias - espetáculo em cartaz em Florianópolis, até o dia 24 de agosto, que pode ser conferido no Teatro da Armação, com texto e direção de Sulanger Bavaresco - de O Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Boch, que descreve a história do mundo a partir da criação e do desejo humano. Em Boch temos o paraíso terrestre (tela central) e o inferno (nas telas laterais). Os infernos do Jardim das Delícias invertem o sentido do tríptico de Boch e se tornam centrais. Se no quadro de Boch o prazer carnal é exercido sem sentimentos de culpa, no espetáculo encontramos os infernos do cotidiano, tão presentes neste "mundo caduco". São justamente as "excrescências" carnais parte do mundo de o Jardim das Delícias.Um menino, Pedro (Egon Seidler), é estuprado por um padre em nome da divindade, da purificação da carne. Uma menina, Isabel (Regina Prates), é castigada por dar vazão aos ímpetos juvenis, beijar seus colegas de turma. No caso desses dois personagens, temos algo em comum: ambos são vítimas de sua pureza. Pedro revela à sua família, a grei Benette, que foi abusado pelo padre; seu pai, Antônio, um bêbado viciado em jogo, interpretado por Sérgio Bellozupko - ator conhecido em Florianópolis por ser um dos organizadores do Festival de Teatro Isnard Azevedo e pela atuação no curta-metragem de Maria Emília de Azevedo, Um tiro na asa - , não acredita no menino, e soma-se a isso o fato de a família depender da ajuda "cristã", porque moram em um convento ou algo equivalente.A morte desses personagens tem como leitmotiv a inocência de um pecado não cometido por eles. Luiza (Diana Pincigher), menina que entrecorta todas as cenas que ocorrem entre Isabel e Pedro, metaforiza o mistério dessas vidas imersas "nonada". Adelina (Márcia Krieger), esposa de Antônio, vive em seu luto constante, sufocada pela dor da ausência, pela presença incômoda de Antônio, que simboliza, em alguns momentos, a presença-ausência de Pedro. Integra o elenco o músico Jorge Linemburg, que executa seu violino com maestria e precisão. A solução para esse drama parece estar na nova casa, que Antônio ganha em mais uma de suas apostas. Contudo, é justamente nesse espaço que os demônios se avolumam e explodem a cada cena.O texto de Sulanger Bavaresco sugere em muito a literatura gótica: florestas, igrejas, ruínas, somadas a segredos do passado, manuscritos escondidos, profecias, maldições. O medo, a loucura, a devassidão sexual, aspectos que também permeiam a literatura gótica, estão presentes no texto de Sulanger.Mas o que nos interessa é o espetáculo teatral. Sulanger Bavaresco está à frente do grupo Dromedário Loquaz há alguns anos. Em 2002, dirigiu Quinnipack - Mundos de Vidro. É conhecida na cena teatral da Capital também por dirigir com competência e seriedade o Teatro da Ubro e ser uma das fundadoras e organizadoras do Festival de Teatro Isnard Azevedo.É necessário ressaltar que o Jardim das Delícias que se apresenta agora é um novo espetáculo, diferente daquele com o mesmo título e texto, mas em formato diferente, que foi apresentado no ano passado, quando contemplado no edital Miriam Muniz da Funarte. O novo formato usa a Casa do Teatro (Teatro da Armação) como cenário. As cenas vão se espraiando pouco a pouco pelo interior do casarão, que resulta num cenário perfeito para texto e atuação. A iluminação do espetáculo (Sulanger Bavaresco e Marco Ribeiro) é primorosa e cheia de simbolismo, como requer o clima do espetáculo. Sulanger tem um bom grupo de atores em suas mãos e consegue dirigi-lo com certo equilíbrio. Tirando os problemas vocais, evidentes em Egon Seidler e Márcia Krieger, podemos afirmar que se trata de um grupo de atores a caminho do profissionalismo. Mesmo o ator mais experiente do grupo, Bellozupko, necessita de maior dedicação à profissão, pois percebe-se um grande ator encubado pela falta de disciplina e exercício cotidianos, matriz essencial a qualquer artista, em qualquer área. Jardim das Delícias é um ato poético quase todo. Atroz, mas poético. Delicado e duro ao mesmo tempo.Quando um diretor opta por um espetáculo em que os espectadores se movimentam, sempre se corre um risco, mas tudo é bem conduzido no Jardim das Delícias. Quanto à utilização do espaço e aos espectadores, apenas uma observação: a equipe que conduz os espectadores pode ser suprimida, e o espetáculo, conduzido apenas pelos atores, pois eles certamente darão conta desse desafio. Outra gratuidade da peça - um problema do texto que se reflete em cena - , ocorre na cena final, quando, no diálogo-agônico entre Antônio e Adelina, revela-se o estado da tríade Luiza-Pedro-Isabel: eles estão mortos. Essa revelação é redundante e desnecessária. Há, ainda, um problema de tempo, uma vez que os espectadores têm que se deslocar bastante. Os silêncios, que pronunciam muito, em nosso entendimento, têm que ser mais explorados. Quando Luiza diz: "Eu sou um pecado. Não sabia que uma criança poderia ser um pecado", o público se estarrece. O silêncio se espraia. São esses os momentos múltiplos (construídos por imagens, sons, falas, música, luz) que o grupo pode usar como um recurso à passagem de um ambiente a outro. Além disso, os sons emitidos pela platéia, em sua deambulação atrás da cena, podem ser utilizados como sonoplastia de algumas cenas. Em muitos momentos, o grupo consegue essa união.Como diria Clarice Lispector, Jardim das Delícias é um espetáculo para pessoas de alma formada. A saga do espectador pela cena seguinte, a costura de cada peça da casa, a afinação de luz-som-cena, a força sinistra que emana dos atores, a dor que perpassa tudo que faz parte do espetáculo, o uso de portas e janelas, velas-e-vozes velozes, frenéticas, suspensas, a surpresa da seqüência de cenas, a entrega dos atores à proposta da diretora, tudo isso coloca Jardim das Delícias entre as excelentes produções do momento teatral florianopolitano, ainda que com alguns problemas, todos inerentes à obra de arte em processo. Quem se habilitar será palco, poesia.ALINE VALIM * Poeta, tem no prelo o livro de poemas Sittah (valim - aline@yahoo.com)
Serviço
Jardim das Delícias
Quando: Sextas, sábados e domingos, até 24 de agosto
Local: Teatro Armação. Praça XV de Novembro
Ingressos: R$ 10 (inteira), R$ 5 (meia)

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