quinta-feira, 24 de julho de 2008

Grupo catarinense discute relações de poder em peça

Grupo catarinense discute relações de poder em peça
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LUCAS NEVES
Enviado especial da Folha de S.Paulo a São José do Rio Preto (SP)
Na preparação para montar "O Pupilo Quer Ser Tutor", peça do austríaco Peter Handke que se despede hoje do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto --e chega a São Paulo, no Sesc Consolação, dia 1º--, a companhia catarinense Teatro Sim... Por que Não?!!! e o diretor convidado Francisco Medeiros consultaram o original alemão e traduções em francês, italiano, espanhol e português de Portugal.

O preciosismo é especialmente curioso por se tratar de um texto que apenas encadeia rubricas do autor. Durante quase uma hora, os dois atores em cena não entabulam nenhum diálogo sequer.
"Era preciso saber exatamente o que Handke falava, seguir aquilo da maneira mais rigorosa possível", justifica Medeiros. E o que o dramaturgo fala sem verbalizar é do poder e dos laços criados a partir dele. A cada ação prosaica, como descalçar os sapatos ou cortar as unhas do pé, o tutor (que pode ser um pai autoritário, um empregador intimidador, um seqüestrador afeito à tortura psicológica, quem sabe) renova o cabresto sobre o outro.
Não há coerção explícita nem ordens eloqüentes: bastam o olhar petrificado, a altivez e o silêncio sem fim do mais experiente para que tudo seja arrumado, limpo, guardado no casebre do interior alemão.
"O corpo tem importância fundamental neste espetáculo, já que não existe sustentação verbal. O que vemos é um discurso das ações físicas que escapa ao realismo. Até tivemos de inventar uma categoria para caber nos roteiros de teatro [dos jornais]: mimodrama [pantomima dramática]", diz Medeiros.
Roteirista de Wenders
Esse "teatro de suspensão" proposto por Handke, que escanteia a linearidade e dilata o tempo, tem um ascendente bem conhecido no cinema: o austríaco é co-autor do roteiro de "Asas do Desejo" (1987), em que Wim Wenders acompanha dois anjos à cata de almas desamparadas na Berlim pré-queda do Muro.
Nos dois trabalhos, importam mais a criação de climas e as sutis alternâncias emocionais do que o enredo; a dissertação poética toma o lugar da narração tradicional, objetiva.
Apesar de o texto ter cenas que evidenciam a humilhação a que é submetido (ou a que aceita se submeter?) o pupilo, Medeiros afirma que não cabe demonizar seu algoz.
"Tomamos [a equipe da peça] o cuidado de não separar de um jeito maniqueísta. Não conheço ninguém que nunca tenha se confundido com o poder. Pupilo e tutor estão em todos nós."
O jornalista LUCAS NEVES viajou a convite da organização do festival

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