quinta-feira, 24 de julho de 2008

Crítica | O Pupilo Quer Ser Tutor por Maurício Alcântara

Num festival cujo tema proposto pela curadoria é tão abrangente como TEXTuras (vem cá, sério mesmo, o que NÃO se encaixaria nessa proposta afinal?), a obra que mais parece estabelecer uma nova “textura” entre a dramaturgia e o que é encenado é, curiosamente, uma peça que não parte da verbalização de TEXTos, mas do encadeamento de movimentos entre dois personagens: um mais velho, mais experiente (e, por isso, mais poderoso) e um jovem que, quase inconscientemente, legitima a autoridade de seu tutor.Não, não é uma historinha contada através de pantomima (adoro essa palavra!): em O Pupilo Quer Ser Tutor não há substituição de diálogos por outros elementos, o silêncio é absoluto. E quando digo “movimentos”, não me refiro a gestos esvaziados de sentido ou repertórios individuais de composição de personagem - cada ação de cada ator encontra seu duplo na reação do outro, e esse jogo é responsável por garantir a manutenção destas relações de poder e de medo.É esse entrelaçamento de movimentos que estabelece essa nova textura, a “mensagem” vai além do roteiro de Peter Handke e se fortalece com a precisão do cenário, com a sofisticação da iluminação, com a trilha sonora quase cinematográfica (e que não interfere no silêncio abissal entre os dois) e, sobretudo, com os movimentos friamente calculados (e mais carregados de significados do que de intenções) dos personagens. Tudo se emaranha de forma que fica muito claro o que quer dizer o “rigor” a que se referia o diretor Chiquinho (era assim que muitas pessoas o chamavam no festival - o que é simpático e o apelido procede, uma vez que seu nome é Francisco Medeiros) durante os quase-debates críticos do Aldeia FIT.O resultado é uma peça que não é exatamente uma delícia de se assistir: a opressão daquela pequena cabana (sala de ferramentas? oficina? quartinho escuro?) e o silêncio contaminam toda a platéia, devidamente (des)acomodada na arquibancada da sala instalada num galpão da Swift - o que pode não ser proposital, mas força a participar da aridez do universo criado e, portanto, da textura (não-)narrativa estabelecida. E ironicamente (ou não), a peça que mais me transmitiu esse conceito do FIT 2008 certamente ofereceria muito menos oportunidades de interpretações, leituras e diálogos fora do festival (e longe de suas texturas). Ainda bem que não deixei pra ver no SESC Anchieta.
55 minutos sem nenhuma palavra

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