terça-feira, 17 de junho de 2008

Galeria Pedro Paulo Vecchietti com nova exposição

Galeria Pedro Paulo Vecchietti com nova exposição

Maria Araújo é a artista plástica que expõe neste mês de junho na Galeria Pedro Paulo Vecchietti. O trabalho apresentado na exposição é resultado do aprofundamento de um tema que a artista já vem desenvolvendo desde 2006, em que experimenta suportes não tradicionais. “Outdoor”, título deste trabalho, é uma exposição composta de uma obra única de 2:30 x 8:80m, em que artista utiliza pigmentos de tinta acrílica sobre folhas usadas de cartazes de outdoors. (veja a crítica de Rasângela Cherem abaixo)Apesar de estar cursando artes plásticas na Udesc, Maria Araújo já tem uma longa trajetória na área. Natural de Lauro Müller-SC, realizou sua primeira exposição coletiva em 1998, em Tubarão. Constam em seu currículo duas individuais e 11 coletivas, todas em Santa Catarina, à exceção de uma realizada em Bonn, na Alemanha, 2007. Crítica de Rosangela Cheren(professora do curso de artes-plásticas, Ceart/Udesc)A Superfície pictórica como rascoAntes de chegar ao uso de outdoors, Maria Costa de Araujo já havia trabalhado com carvão e pó de mármore sobre mdf, negativando este suporte. Em 2007 no Museu Hassis, durante a Exposição Pretexto, explorando a cor do papel Kraft apresentou como objetos artísticos sacolas usadas como embalagem de lojas, permitindo que as pessoas pudessem passear com elas vazias pelo local. Deixadas na condição in natura, mas abertas, as mesmas voltaram no Festival de Inverno no CEART-UDESC e depois na Biblioteca daquele mesmo Centro. O passo seguinte foi dado pelo reaproveitamento de papel como suporte, quando várias sacolas foram coladas. Se antes da graduação de Artes Plásticas a artista realizava suas pinturas com aquarela, depois passou para o uso de guache e tinta acrílica. Seu desenho passou a ser feito com fita crepe, seguido pela pintura de duas cores recorrentes, preto e branco, embora nunca puras, uma vez que conversam com as cores pertencentes originariamente às letras e formas impressas no papel. Após a retirada da fita crepe, as formas visuais ganham outra configuração, invertendo o que deveria ficar em primeiro e em segundo plano. Por se tratar de material menos encorpado, algumas partes foram rasgando, sendo este acidente incorporado ao trabalho.Os mesmos procedimentos também podem ser observados na folhas de outdoor. O papel rejeitado é reaproveitado, o que foi um dia vegetal ganha sobrevida através de uma nova metamorfose. No plano poético, são explicitadas certas conexões com a tradição paisagística, lembrando, de um lado, a destruição da natureza e, de outro, a criação artística como trabalho realizado sobre este desastre: meus troncos velhos, meio mortos estão mais para ruínas, suscitando paisagens de queimadas e guardando, de certo modo minha preocupação e meu vínculo afetivo com este tema.Trabalhando com forma e contra-forma, Maria apresenta uma espécie de máscara mortuária do mundo. O vegetal que pertenceu ao ambiente natural torna-se produto industrial e o simples objeto de consumo que se tornou refugo é reaproveitado como suporte artístico, trazendo consigo uma parte deste destino refeito pela problemática da paisagem e do resto. Carne do mundo desfeita e refeita antes do seu completo desaparecimento, aquilo que já não é mais torna-se outra coisa. O vestígio como sobra sofre nova alteração para alcançar uma vida póstuma, ainda que também não possa ser perene. Transbordamento silencioso de um desenho de Aldo Beck (1919-1999), conhecido pintor de lugares e cenas da cidade a partir de lembranças e fotografias antigas, o trabalho em questão consiste na montagem de quatro painéis que formam uma única paisagem. A aquarela que ganhou de presente num dos encontros com o artista serve como referência para o desenho com fita crepe no outdoor, em seguida revestido com várias camadas de tinta acrílica. Com tamanho inicial de 2,80 x 8,80 ganhou novo enquadramento, 2,30 x 8,80, para poder adequar-se às medidas do espaço expositivo, dando prioridade novamente ao branco e preto mas deixando surgir um cenário formado por montanhas. Neste jogo repleto de des-velações diversos movimentos podem ser reconhecidos, no sentido de ultrapassar a mera condição ilustrativa e/ou narrativa da imagem. Recusando a clave da representação como evidência documental da natureza ou mera defesa ecológica, destaca-se a ação do tempo e o poder das contingências e do acidente sobre a matéria, ratificando o fato de que diante de uma obra, tal como ocorre com a memória, estamos sempre diante de uma encruzilhada constituída pelas inumeráveis possibilidades do destino e por seu infinito feixe de temporalidades.Considerando um tempo mais remoto, as viagens, jardins e tapetes podem ser pensados como uma tentativa humana de se projetar para fora de si mesmo, embora também o sejam os cenários situados nos afrescos, relevos e retábulos. Muitas vezes multiplicado pelo recurso das janelas e cortinas, o espaço da pintura pode ser pensado como um arremesso em direção a um fora, conferindo ao olho o poder de atravessar, cindir, fender. Assinalando uma abertura que remete ao exterior, persiste um fluxo de distâncias e aproximações, deslizamento capaz de tornar visível algo que está para além do visual. Efetuando uma espécie de torção das particularidades pictóricas, o olhar altera aquilo que não passa de manchas pigmentares e revestimentos, efeitos coloridos e texturas sob superfície, deixando que ali se encene a carnalidade do mundo. No caso dos outdoors reaproveitados por Maria, o desafio se coloca pelo gesto de perturbação da matéria que replica os rasgos e os lances de superfície-profundidade para que surja uma paisagem dilacerada. Em tempos de hiper-paisagem, com estação de esqui em Dubai e praia às margens do Senna, em que Tróia e Babilônia surgem como verdades fílmicas mais verdadeiras do que todos os fragmentos de livros e museus que conhecemos, somos levados a constatar que toda paisagem é cenário. Para olhar o mundo, seja através de véus ou lentes, projeções ou telas é preciso que o façamos cintilar e aparecer, esquecendo que o que chamamos de visível não passa de superfície de uma profundidade que permanece maciça e intransponível. Neste trânsito paradoxal de iluminações e obscuridades, espessuras e ilusões, afastados das coisas em seu ser, enquanto pensamos que rasgamos a superfície das coisas esquecemos que todo olhar traz consigo uma névoa, que seus atributos são provenientes de sua condição háptica e que só podemos abordar o invisível preservando sua desaparição. O que Maria parece nos lembrar é que se toda pintura é uma oferenda ao olhar, para alcançar a paisagem de sua tela é preciso que o olho daquele que olha também rasgue aqueles rasgos, que diante daquele papel reaproveitado seus olhos redesenhem o que foi antes e o que restou depois, que se abandone, enfim, como o vegetal no dia em que se tornou matéria informe para que tudo isto fosse possível.
A Galeria
A Galeria Municipal de Arte Pedro Paulo Vecchietti é dos equipamentos culturais do município. Foi inaugurada em 2004 e está sob a gerência da Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes, órgão oficial de cultura do município de Florianópolis, cujo atual superintendente é Vilson Rosalino da Silveira. Esta já é segunda exposição de 2008. O calendário de exposições é composto mediante o lançamento de um edital anual, o próximo está previsto para maio deste ano. A comissão que avalia as propostas é composta por João Evangelista Andrade Filho, administrador do Museu de Arte de Santa Catarina (Masc); Fernando Lindote, artista e também curador do Pretexto, projeto de arte contemporânea desenvolvido pelo Serviço Social do Comércio (Sesc); João Otávio Neves Filho, o Janga, artista e crítico de arte; Rosângela Cherem, doutora e professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc); Sandra Meyer, presidente do Instituto Meyer Filho; a artista plástica Lena Peixer e Maurilo Xavier Roberge, representante da FCFFC e responsável pela galeria.BoxO que: Exposição “Outdoor” de Maria AraújoOnde: Galeria Municipal de Arte Pedro Paulo Vecchietti – FCFFC/PMF Praça 15 de Novembro, 180, centro, 88010-400, Florianópolis (SC), tel.: (48) 3228-6821 ramal 30Funcionamento: 10 às 18h – segunda a sextaAbertura: 12 de junho, às 19hVisitação: de 13 de junho a 15 de julho

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