terça-feira, 29 de abril de 2008

Luz à cultura


Gente
Luz à cultura
Carlos A. Falcão completa 25 anos como iluminador do TAC

Quando a sala do teatro escurece o coração de Carlos Antônio Falcão Cavalcanti Lins dispara. É nesta hora que ele entra em cena. Não no palco, mas no comando de uma mesa de luz que, junto com os atores e o texto, ajuda a dar vida a um espetáculo. Falcão é, há 25 anos, o iluminador do Teatro Álvaro de Carvalho, o TAC, como é popularmente conhecido o prédio histórico localizado numa área nobre da Capital.O baixinho de óculos que perambula apressado pelos corredores do teatro começou sua vida na Marinha do Brasil. Nascido em São Francisco do Sul, seguiu os passos do pai que era militar. Nos navios, Falcão trabalhava com eletricidade na casa das máquinas. O tempo foi passando e o jovem decidiu prestar vestibular para Engenharia Elétrica na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Aprovado, cursou alguns semestres mas precisou arrumar um emprego para sustentar a família.Corria o ano de 1979 quando entrou no TAC pela primeira vez. Ele soube por meio de um amigo que a administração procurava um eletricista para trocar as lâmpadas do principal lustre do teatro, uma peça pesada feita em ferro que, com suas formas retorcidas, dás um ar requintado à sala de espetáculos.Carlinhos Moraes era o iluminador oficial dos espetáculos na época e foi pelas mãos dele que Falcão conheceu uma mesa de luz, peça que mudaria para sempre sua vida.- A primeira vez que eu operei um canhão, aquela luz que ilumina os passos do artista foi um choque de alegria - conta Falcão que hoje está com 56 anos e enche os olhos de lágrimas ao relembrar sua história.Qual foi a peça que lhe emocionou?- A data eu não lembro, mas foi Motel Paradiso com Juca de Oliveira.No dia anterior passou ajudando na montagem, instalando lâmpadas, direcionando os canhões. Mas o que ele sequer sonhava é que aquele seria o dia de sua estréia como iluminador. O diretor da peça deu o terceiro sinal, indicando que o espetáculo iria começar, mas na hora surgiu um problema. O responsável pela luz da companhia de Juca de Oliveira desapareceu. Falcão, então, assumiu a mesa cheia de botões coloridos e, por telefone, o diretor lhe indicava as marcações de cena. Um sufoco para o estreante, mas que se converteu num aprendizado.Um céu estrelado no teto do teatroAos poucos, Falcão foi conquistando a confiança dos colegas de teatro e das companhias que se apresentaram no TAC. E as mãos nervosas e o olhar preocupado do iluminador deram ainda mais brilho para artistas como Agildo Ribeiro e Rogéria que rodaram o Brasil com o espetáculo Alta Rotatividade. A dupla de artistas desembarcou em Florianópolis e precisava contratar um iluminador. E lá foi Falcão, com o coração apertado e com um desafio a enfrentar: não podia errar, pois deixar um artista falando no escuro seria como dar corte profundo no espetáculo. E um sem-fim de personagens, cenas e artistas desfilam pela memória de Falcão.- Paulo Autran, Fernando Montenegro, Bibi Ferreira, Juca Chaves, Chico Buarque, Marco Nanini - recorda, sem disfarçar as lágrimas que escorrem tímidas pelo canto do olho.Os segredos para uma boa iluminação vão além da boa vontade ou da destreza do profissional.- É preciso estar em sintonia com o diretor - ensina.Considerado um patrimônio do TAC - não só pelo tempo de casa, mas pela paixão com que trabalha - é claro que o seu cantinho preferido só poderia ser a cabine de luz.- Eu tenho adoração por aquilo lá. Pena que com a chegada dos recursos tecnológicos a cabine está ficando obsoleta. Mas eu vou aprender a trabalhar no computador - desafia-se.Ao longo das mais de duas décadas que trabalha no teatro lhe renderam algumas sólidas amizades e muita admiração como a de Eduardo Serafim, um dos integrantes do Cena 11.- Desde que eu me conheço por gente e que circulo pelo teatro que conheço o Falcão - diz Serafim.- Ele é o nosso pai, tudo o que gente aprendeu foi com ele - conta Irani Apolinário, coordenador de palco do Teatro Ademir Rosa, no CIC.No último dia do Floripa Teatro foi chamado ao palco do Ademir Rosa. Na sua cabeça era para ajudar a resolver algum problema. Mas foi surpreendido. Era para receber uma homenagem pelo trabalho que desenvolveu ao longo dos últimos 25 anos. A emoção embargou-lhe a voz.- Eu queria pedir a todos para que fechassem os olhos e projetassem um céu estrelado no teto do teatro, mas não consegui - diz com ternura.( jacqueline.iensen@diario.com.br )JACQUELINE IENSEN

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